segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Figuras de Verão

O que é Verão pra você? Sol, caipirinha e farofa? Água de côco, mar e Axé? Sombra, rede e água fresca? Musas bronzeadas? Caras saradões? Uma pessoa normal escolheria qualquer opção acima. Porém, durante os meus 5 dias de folga em Caldas Novas, descobri que extraterrestres também tiram férias. Ou melhor dizendo, tem peixe que faz questão de ficar fora d’água!


Não chegam a repudiam a estação. Apenas estão alheios a ela. Estão lá, junto da família, na praia, no clube, no acampamento. Mas não lhes parece o habitat natural. Falta-lhes a harmonia com o meio e com as outras espécies. Aquele senhor, por exemplo: a pouca roupa não combina com sua obesidade. Tampouco o óculos de sol com sua calvície. Nem esse celular parece combinar com sol e piscina. E mesmo assim, não desgruda dele:

— Não é possível! Será que eu não posso passar uma semana fora que essa empresa pára?

Anda pra lá. Volta pra cá. Inquieto, exaltado. Seu problema foi ter trazido o stress na mala e as obrigações no bagageiro. É que se acostumou tanto ao trabalho que não sabe mais o que fazer quando lhe sobra tempo. Então, dá um jeito de não se desligar das obrigações:

— O que? Quanto? Sessenta a arroba? Compra! Compra logo!
Não entra na piscina. Não tira um cochilo. Só compra . Ou vende...
— Sessenta e cinco? Vende! Vende rápido!
Às vezes, tão preocupado com o trabalho que esquece que está de férias com a família.
— Papai, posso comprar sorvete?
— Comprar? Agora não! Vende vende vende!

Basta, porém, avistar sua filhota mais velha conversando com um rapaizinho que a atenção do paizão muda. Inventa uma desculpa pra desligar e vai lá buscar a filhota. Patrimônio é algo que ele não abre mão.

Outro tipo se destaca dos demais no verão. Não pelo tom de voz com que fala ao celular, mas pela cor que lhe destaca ao longe. Amarelo. Como as páginas antigas do livro que lê. Não, esse é discreto. Discretíssimo. Concentradíssimo. As letras miúdas lhe parecem mais interessantes que as pernas graúdas da morena que passa ou as águas termais. Recolhe-se em sua cadeira. Cruza as pernas apoiando um joelho sobre o outro, como fazem as mulheres (ou faziam!). Esse óculos parafusado, esse cabelo jogado de lado, esse chinelão Rider... é, é mesmo um estranho . Deve estar acostumado com terno. Só assim para não se incomodar com tanta roupa nesse calor. A mulher cuida dos filhos na piscina. Ele, do livro. Parece um acordo justo.

Existe, ainda, um terceiro tipo bizarro encontrado no verão. Este o mais exótico e esdrúxulo. Discreto com o segundo, embora tão agitado como o primeiro. Seu divertimento é observar. E ler. Observar as pessoas e ler um livro, ou revista, ou jornal, ou livro de receitas ou lista telefônica. Ou mesmo ler as pessoas - e apenas observar o livro, usando-o como estratagema para ler e entender os passos de cada um, sem que seja por eles percebido. Sim, as morenas também lhe interessam. Suas cucas, não suas curvas. E se algo interessante lhe toca a idéia, passa a mão em uma caneta e anota. Anotar? Onde? Com que caneta? Acaba fazendo uso do celular. Celular? Anota assim de improviso, para passar a limpo dias depois quando for escrever sua crônica semanal.

Diogo Honorato não sossega nem nas férias

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